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PÁTIO - LANCHE

Atualizado: 13 de out. de 2021


Crédito da foto: PUCNIC, Clarissa Menna Barreto, 2019.

Perguntou-me o que aconteceria se o presidente, por algum acaso, não pudesse mais ser o presidente. Haveria um substituto, respondi.

Seu semblante de dúvida fazia-me interpretar que, para ela, parecia improvável que um presidente pudesse ser substituído.


- Me conta, então, o que acontece quando uma professora não pode ir à aula num dia, por exemplo?, perguntei.

- Tem uma substituta, disse-me, visivelmente inundada pela epifania da compreensão, por comparação, afinal professores figuram em nossas vidas como autoridades.

- E se a substituta da substituta não puder ir?, prossegui.

- Tem outra substituta, constatou.


E seguimos escalando as possibilidades de substituição, até que chegamos a um limite com sua pergunta:


- E se não houver mais substituta?


Fervilhavam intenções em minha mente. Não importava, para mim, naquele momento, o nível de necessidade de substituição a que fôssemos submetidas. Havia um motor interno, ativo e atento, que tentava atropelar minhas palavras, buscando avidamente desenhar um retrato de um mundo muito mais coerente e organizado do que, de fato, o é. E eu queria evitar falas que levassem a encruzilhadas nas quais houvesse possibilidade de visualizar crianças sem as referências dos adultos.


- Bom, daí a escola poderia suspender a aula, ocorreu-me dizer.

- Ou poderia deixar as crianças serem as professoras naquele dia, rapidamente ela sugeriu.


Curioso.


Em momento algum tinha aventado essa possibilidade. Certamente em algum cantinho escuro e obscuro do meu ser, o saber dos meus estudos ainda não tinha feito a lavoura, sequer pela imaginação. Escola conduzida pelas crianças, sendo elas as professoras, talvez estivesse guardado no departamento interno de cenários potencialmente perigosos. De pronto, optei por ressignificar esse resquício de paradigma da criança selvagem adormecido e lancei, em meio aos nossos risos, com entusiasmo:


- Poderia ser! Então, me conta, o que tu proporias se fosse a professora por um dia?

- Ah, eu faria: Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio.


Caos?!


Parte de mim, aquela das estruturas empedernidas, das regras rígidas, do controle, da disciplina, da ooooordeeeeem (!), estava de cabelos em pé, andando de um lado para o outro, e com muitas e muitas e muitas vozes soprando em seu entorno: - olha aí, tá vendo?, deixem soltas e vira baderna! - Não querem nada com nada! - São preguiçosas, não querem estudar! - Primeiro as obrigações, depois a brincadeira! Certamente há muito mais experiências pessoais e coletivas com estruturas rígidas, dominadoras e opressivas do que com aquelas flexíveis, parceiras e condutoras da autonomia nesse verbo todo.


Mas outra parte de mim, aquela do sim (!), do novo, do experimento, aquela que apenas confia, aquela da valorização do essencial ficava se perguntando: seria muito legal se as crianças pudessem viver isso por, ao menos um dia, não achas? E autoeducava-se: e se as crianças fossem convidadas a pensar acerca dos processos pedagógicos nos quais estão inseridas e que definem, todo o santo dia, o dia a dia de suas vidas escolares, que tal? Na programação pátio - lanche, algo ficava evidente: um professor, em sua função, deve estabelecer uma rotina dividida por tempos e atividades alternadas, e tudo pareceu bem até ali. O único senão surgiu nas escolhas dessas atividades.


Já faz algum tempo, meu filho, enquanto conversávamos sobre profissões e formas como deveríamos encarar o serviço que prestamos à vida, sinalizou algo que retornou a mim naquele instante. Ele revelou que tinha interesse em utilizar recursos, e muito possivelmente da informática, para fazer com que crianças gostassem da escola. Lembro de ter ficado surpresa e de ter solicitado que me explicasse suas ideias. Ele me disse que normalmente as crianças gostam da escola por muitas coisas, mas não pelas aulas em si. E ele acha que deveriam gostar, pois passam a maior parte de suas vidas - toda a infância e adolescência - entre aulas e aulas. Segundo ele, ainda não existe uma forma para que esse gostar aconteça, pois elas normalmente são muito chatas, declarou. E ele gostaria de mudar isso.


São duas crianças com idades e trajetórias escolares distintas. Não se pode dizer que o sentimento de uma seja igual ao da outra em relação às aulas, pois essa comparação não estava na conversa e não é foco nessa partilha. O que essa cena faz ver é que escola é um espaço significativo na vida das crianças, composto de nutrição física, intelectual e afetiva, e que um dos melhores conteúdos ainda figura ser o de estar com o outro. Nessas vozes parece haver uma consciência de que são suficientemente capazes para participarem do planejamento do que vivem naquele espaço. E isso tudo pode querer nos sinalizar que talvez não queiram viver no velho mundo em que estudo e trabalho é sinônimo de sacrifício.


Tudo em não mais de dez minutos de um dia qualquer, entre uma garfada e outra. Para ouvir a criança não precisa de muito. Basta um tantinho de coragem para ampliar o horizonte de visão e deixar velhas certezas para trás. Feliz Dia das Crianças, com gratidão por tudo o que são e nos fazem (re) pensar.


12 de outubro de 2021



Por Juliana Tonin

Mãe do Gabriel e da Catarina. Comunicóloga, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da FAMECOS/PUCRS. Pós-doutora em Sociologia da Infância (Paris V - Sorbonne), Coordenadora do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias.


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