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Mães em Tempos de Quarentena

Atualizado: 11 de dez. de 2020


Desde 2016, para além de minhas experiências pessoais com meus dois filhos, tive oportunidade de acompanhar alguns diálogos acadêmicos sobre a maternidade. Dentre eles, conheci reflexões sobre o imaginário contemporâneo da maternidade, estudo de pós-doutorado de Paula Jung, com o qual interagi como colega e interlocutora. Em outras duas pesquisas, a de doutorado de Kamila Almeida (2019), Mães em contexto de violência doméstica e suas percepções com relação aos filhos: narrativas biográficas de mulheres agredidas, orientada pelo Prof Dr. Hermílio Santos e de mestrado de Raquel Schneider (2020), Imagens simbólicas da maternidade a partir de mães youtubers, tive a felicidade de participar com certa interferência formal desejada, atuando como avaliadora e orientadora, respectivamente. Em síntese, são dois estudos da Comunicação e um das Ciências Sociais.


Os traços comuns que me uniam a essas mulheres e que parecem unir seus interesses entre si, independentemente de seus campos delimitados e muito embora suas pesquisas não tenham convivido simultaneamente, estavam alicerçados numa espécie de cumplicidade silenciosa que vertia nas conversas e extravasava nas interpretações, nas escritas: a experiência da maternidade é profundamente transformadora para a mulher, promove uma ressignificação de todas as noções de espaços, tempos, volumes, limites e a confirmação da responsabilidade pela vida de um bebê conduz a um navegar impreciso e ambivalente por águas ora calmas, profundas, ora intensas e revoltas.


Para além dessa transversalidade das experiências, cada um dos caminhos parece desvelar uma faceta diferente da maternidade. Jung atentava para as formas pelas quais a cibercultura possibilita a criação de redes de apoio para as mães. Seu interesse partia da hipótese: tornar-se mãe envolve o reconhecimento da necessidade de ser ajudada, mãe e bebê. Numa época em que, como pontua Lipovetsky, impera o “hiperindividualismo, hipernarcisismo e hiperconsumo”, e na qual os auxílios às mães e aos seus bebês são legitimados, regulados e oferecidos hegemonicamente pelos discursos e práticas de especialistas, a internet e suas redes oferece uma alternativa de reconexão com o todo, com outras mães, outras famílias, outras experiências, possibilitando tipos alternativos de presença, de apoio e emanação de um espírito de comunidade. É o que Maffesoli considera ser a essência mesma da pós-modernidade, a união do arcaico com a tecnologia. Partilhas de vidas em ambientes digitais que minimizam os sentimentos de várias e incontáveis maternidades solitárias.


Almeida apresenta narrativas biográficas de mães vítimas de violência doméstica, destacando o lugar dos filhos. Suas interpretações levam a perceber uma relação bastante recorrente e direta entre o impacto do nascimento dos filhos e o início de agressões físicas. As mulheres suportariam a violência, por longo tempo, sem denúncias ou mesmo fugas, em grande medida por conta da situação de extrema dependência financeira na qual estariam imersas. E teriam dificuldade na captação de recursos porque muitas vezes não contam com apoio de outras pessoas e precisam restar em casa para cuidar de seus filhos pequenos. Assim, a maternidade tenderia a piorar aquilo que já está debilitado, ou seja, o nascimento de crianças não abranda, salva ou resolve qualquer tipo de desavença entre casais, ao contrário, pode até ampliá-los. E as crianças acabam ocupando lugar central no conflito, sendo expostas a um ambiente de grande tensão. Nessas situações, os sentimentos em relação a elas parecem oscilar entre a certeza do dever de protegê-las, acima de qualquer circunstância, risco ou ameaça, e uma vontade de culpabilizá-las, pois são percebidas como estopim para a violência.

Schneider procura compreender as possíveis imagens simbólicas da maternidade difundidas nas redes sociais. Identifica os modos partilhados de ser, agir, sentir, os “estilos de maternidade” que se cristalizam na atmosfera do coletivo através de análises dos canais de mães youtubers. A partir de um panorama sócio-histórico das imagens simbólicas da maternidade no Brasil do período colonial até os dias atuais, sintetiza num quadro os princípios que norteavam a experiência da maternidade desde então.

Suas interpretações identificam permanências de algumas características dessas imagens simbólicas ao mesmo tempo que sinalizam a emergência de novos estilos de maternidades, a performática e de tutorial, nomeia a autora. Exibição de espaços e momentos íntimos do cotidiano, humor, entretenimento, espetáculo, compartilhamento de dicas, produtos, serviços e o tornar-se mãe como um meio de vida para a mãe youtuber. Maternidades cada vez mais bem equipadas com possibilidades de formas e normas de dever ser e fazer.


Essas pesquisas, entrelaçadas, ajudam a compreender os lados sombrios do imaginário da maternidade em tempos de quarentena: mães seguem precisando de ajuda e de apoio para criar seus filhos, a necessidade de convivência diária em famílias fragilizadas potencializa atos de violência contra as mulheres e contra as crianças e os comportamentos, por mais adversas que sejam as condições, tendem a seguir e reproduzir estilos vigentes. De tudo o que se ouve e se vê nos compartilhamentos, parece ecoar uma expressão, sussurrada com voz feminina, um elo comum nas manifestações de mães inseridas nos mais diferentes contextos: “não damos conta”. Antes da quarentena, ouvia-se mais: “é uma correria, não dá tempo”. Evocava-se uma ideia de movimento, de ir e vir constantes, de uma vida muito dinâmica. Suprimida boa parte do trânsito pelo teletrabalho, curiosamente, restaram as mesmas queixas. De fato e fardo, o imaginário contemporâneo da maternidade em tempos de quarentena poderia se resumir na palavra: sobrecarga. Assim como perguntamos para a quarentena, poderíamos também perguntar para essa hipermaternidade: vai até quando? Palavra Cantada, em uma de suas canções mais conhecidas, afirma sem rodeios: “criança não trabalha, criança dá trabalho”. Sempre que ouço ou lembro desta música, questiono se talvez não seria melhor ajustar: “criança não trabalha, trabalho dá trabalho”. A culpa não é das crianças. O equilíbrio entre maternidade e o mundo do trabalho ainda não aconteceu. Reconhecer o que é essencial, estar atenta aos próprios limites, promover escolhas conscientes e provocar as mudanças necessárias no (seu) mundo podem ser valiosos caminhos para o nascimento da partilha das experiências do “dar conta”, com ou sem quarentena.


Por Juliana Tonin


Mãe do Gabriel e da Catarina. Comunicóloga, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da FAMECOS/PUCRS. Pós-doutora em Sociologia da Infância (Paris V - Sorbonne), Coordenadora do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias.


Texto publicado no Caderno de Sábado - Correio do Povo | 16.05.2020

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