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EDGAR MORIN: UM SER ATEMPORAL - UM CENTENÁRIO PARA CELEBRAR E APLAUDIR

Atualizado: 6 de jul. de 2021



Nos dias 28 e 29 de junho, o quadro “Jornadas” do Sesc São Paulo celebrou “Edgar Morin: a vida em tempos de incerteza e a construção do futuro”. Em comemoração ao centenário do intelectual, o objetivo do programa foi construir pensamentos a partir da “obra de Edgar Morin, a pluralidade de suas interpretações e inspirações, para as incertezas do futuro e o futuro das incertezas no mundo contemporâneo”. Organizada por Edgard de Assis Carvalho, a exposição transcorreu com a presença de Conceição Almeida, Izabel Petraglia, Juremir Machado, Lia Diskin, Mário Sérgio Cortella, Michel Maffesoli e Tereza Mendonça Estarque.


Danilo Santos de Miranda, diretor do Sesc São Paulo, fez a saudação inicial do primeiro dia de evento: “num mundo de isolamento social, de precários e raros encontros corpóreos. No mundo de lives e distâncias. No lugar onde a morte sem desculpas se anuncia dia a dia. O que comemoramos hoje, de modo urgente e necessário, é a vida. A vida e a experiência, encarnadas na longevidade de um ser humano, de Edgar Morin”. Danilo Miranda, além de demonstrar a sua profunda admiração pelo autor como educador, pensador e professor, ainda ressalta que “a empatia com o seu pensamento se dá no momento exato em que toca nossa carne. [...] No pensamento de Edgar Morin os termos completo e complexo, integral e integrado, se anunciam como princípios a serem desvendados enquanto vividos. Nele há um universo de conexões entre o impensado e o desejado, entre ele, a crueza e o idílio. Abraça o mundo com a mesma energia contagiante de uma criança e como o filósofo se faz perguntas sobre a vida aos moldes de um infante que desvenda os mistérios que o circundam”.


Após a introdução do diretor do Sesc SP, Edgar Morin fez uma breve apresentação, agradecendo a sua recepção e evidenciando: “estamos num período de crise e creio que há a necessidade de repensar a complexidade dessa crise com todas as suas incertezas, com todos os seus perigos. Impõe, justamente, que mude o modo de pensar, esse modo que infelizmente nos foi colocado, em melhor compreender este mundo, a fim de evitar catástrofes. E sempre para o melhor”. Morin não pôde participar de todo o decorrer do evento, porém afirmou a sua imensa alegria de estar ali presente naquele momento e saudou a todos os participantes: “quero saudar os meus caros amigos, como saúdo todos os meus amigos brasileiros presentes. Tenho a alegria de ver vocês, como Edgard de Assis. De ver tantos rostos amigos agora e outros que ainda não conheço. Eu não vou poder participar de todas as palestras desta bela reunião que vocês me indicam. Mas saibam da minha alegria de estar aqui e desse ser tão bem recebido. Tão bem entendido, tão apreciado. E deixo vocês com todo o meu amor e todos os meus votos, para o Sesc, para o Brasil. Saúdo a todos vocês. Até logo”.


Posteriormente, o professor Edgard Assis fez uma exposição do livro “Tornar a Terra habitável de novo”, escrito por Edgar Morin e o filósofo alemão Peter Sloterdijk, em 2011 (ainda não publicado no Brasil), referindo que Morin, prestes tornar-se centenário, permanece um pensador “polifônico, transdisciplinar. Empenhado em ampliar a compreensão de um mundo cada vez mais interligado, interconectado, interdependente. Devastado (como sempre diz) por uma policrise planetária, que demanda uma política de civilização capaz de superar o mal-estar na cultura, de regenerar o humanismo, de ampliar a ética. Mudar de via, mudar de vida, é o novo imperativo categórico que temos que pôr em prática, para que a terra volte a ser habitável de novo”.


O debate entre os convidados Juremir Machado da Silva e Conceição de Almeida aconteceu em seguida, mediado por Lia Diskin. Lia Diskin fez uma breve apresentação referida na obra de Morin, afirmando que “a reforma de vida não poderia eludir ou elucidar nem o mistério da vida, nem o enigma do universo. Mas ela nos torna poeticamente acessíveis a esse mistério e a esse enigma. O termo 'regeneração' significa sobretudo o retorno à fonte geradora. Isto é, criativas. E, portanto, na ativação de um desenvolvimento, envolvimento, humano - criador de uma nova civilização, de uma reforma de vida - poderia ser simultaneamente produzida e produtora. Nossos palestrantes, nossos debatedores, sem sombra de dúvida manifestam esse espaço de expressão poética, de expressão lúdica e recreativa de um novo pensar”.


Juremir Machado da Silva destacou que dentro do repertório de Morin, uma questão fundamental é o apego do princípio hologramático, que nos diz que “a parte está no todo e o todo está na parte. Em tempos de pandemia, pensar isso é importante, porque é o tempo de pensamento, eu diria, celular”. Além de destacar a dialógica explicação e compreensão", a qual ouviu a explanação do próprio Morin, que aborda que “ de certo modo nós somos um produto da sociedade ocidental, racionalizada ao extremo, da busca obsessiva pela explicação. E que a ajuda, ajudou e tem ajudado a construir a civilização na qual nós conhecemos, mas também é preciso pensar no polo compreensão. E isto nos vem a cada dia”.


de Almeida descreveu Morin como um “eterno adolescente” por ser um ser em constante desenvolvimento e evolução. A debatedora apontou uma colocação do autor em uma entrevista, ao relatar que em tempos de pandemia e confinamento em casa: “a julgar pelo assédio econômico online que alimenta a compulsão pelo consumo e a overdose das comunicações virtuais, há pouco tempo para a introspecção. A convivência consigo mesmo se torna cada vez mais a aptidão humana em desuso. Por outro lado em níveis “nacional e internacional” são poucas as instituições que mantêm inegociáveis ideários e protocolos com vista à construção de uma comunidade aberta que tem por base a diversidade e a aceitação. Não por decreto, mas por convicção de modos de viver diversos”. E, no decorrer da reflexão da obra de Morin foi abordado as temáticas de falta de diversidade, intolerância, fome, sociedade, cultura, entre outros.


Lia Diskin finaliza o debate, e fechou o primeiro dia de evento, expondo o seu aprendizado de um seminário que Edgar Morin ministrou em 1998 na Associação Palhoça Athena, sobre o pensamento complexo e ética: “uma das coisa que mais me impressionou do professor Edgar Morin era a qualidade de escuta que ele tinha com as perguntas. A paciência que tinha para ouvir não só os questionamentos em portugues, mas para confirmar se aquilo que ele tinha entendido era aquilo que se tinha dito. E apenas quando ele tinha clareza sobre o que tinham perguntado, que ele começava a exposição. E isso diz respeito a uma alma de pedagogo. A uma alma de alguém que não interessa apenas conhecer e saber [...], mas que quer fazer, instruir um caminho[...]”.


O filósofo Mário Sérgio Cortella, mediador do segundo dia de evento, abre a exposição com a fala: “quando se pensa na construção do futuro, a ideia central é a ideia de vida, termos vida e sermos vida”. Ele atesta a importância daquele momento em meio ao caos pandêmico: “que bom que nós nos juntamos para não desistir”. Em seguida, a pós-doutora em Ciências Humanas, Izabel Petraglia, incentivada por Cortella, inicia sua fala buscando ilustrar que o sociólogo Edgar Morin não havia sido escolhido como temática do painel por acaso, mas sim por ele, independente da época, sempre ter estado no âmago das questões do momento. Ela destaca que “ele vivia incansavelmente na luta pelos invisíveis e marginalizados de um sistema hegemônico e pródigo em desigualdades sociais e culturais, em um mundo carente de solidariedade e humanidade”, motivo pelo qual Morin ensina sobre a importância de questionar tudo e todos, incluindo a ciência e os paradigmas sociais. Ele faz refletir sobre as ilusões do conhecimento. “Para Morin nada tem sentido se não for coroado de amor e humanidade. Mais do que religar conhecimentos, ele sempre quis religar pessoas, e o fez como poucos”.


A psicanalista Tereza Estarque abre a temática da pandemia e da impossibilidade de se imaginar uma possível compreensão do futuro, e inicia ilustrando sua fala com uma consideração acerca da origem reflexiva do sociólogo: “Morin guardava em seu espírito uma criança muito curiosa, principalmente sobre as questões sociais”. A partir daí, ela discorre sobre a influência da incerteza em nossas vidas atualmente, explicando a necessidade de se ter recursos psíquicos para suportar a dureza da realidade, pois “Se entramos na hipercomplexidade, entraremos na conivência permanente com o acaso e a incerteza. A hipercomplexidade destina-se ao dever”, como diz Morin. Em meio a mais de 500 mil mortes no Brasil provocadas pela COVID-19, marcadas pelo negacionismo de alguns e pela dor de muitos, Cortella explica ainda que “as grandes dores são mudas”.


Quanto à dimensão da pesquisa, Petraglia compreende que não há verdades eternas, ou seja, que a vida tem um movimento constante. Por isso, a relação entre sujeito e objeto se coloca na observação do outro e de si mesmo, pois, como já dizia Morin, “A ética em pesquisa é a questão de a gente olhar pro outro, eu olho pro outro ao passo que eu olho pra mim” . Sobre o assunto, Cortella compreende que não há como, portanto, o pesquisador não ter uma conexão interativa e ser influenciado por aquilo que está ao seu redor, e por isso “A pesquisa científica nesse momento tem a intenção de nos fazer sobreviver”. Em tempos de tanta insegurança e de incertezas, o sociólogo francês Michel Maffesoli, escolhido para fechar o segundo dia do evento, trouxe uma mensagem de esperança ao dizer que “A cada vez que há uma destruição, há um renascimento”.

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