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Criança não tem Malícia

Atualizado: 18 de jun. de 2021

Praticando rotinas domésticas num cotidiano qualquer, sou despertada de meu automatismo pela voz de minha filha de cinco anos, que me chama para compartilhar uma informação que acabara de receber da televisão. Ela estava radiante. Empolgada. Falava tão forte e tão alto e tão rápido que era difícil compreender suas palavras.


- Mãe, sabe que inventaram um tira manchas que é capaz de tirar qualquer tipo de mancha? Significa que agora tu vai poder tirar todas as manchas! Tu só não vai tirar as manchas quando acabar o pote, mas, daí, tu compra mais um pote e ... pronto!


Meu sentimento foi de total ambiguidade. Por um lado, vê-la naquele entusiasmo fazia parte daqueles singelos momentos em que olhamos para nossos filhos e filhas e sentimos muito, muito amor. Por outro lado, o constrangimento. Minha filha acreditara cegamente na publicidade. Procurava pensar rápido e, quanto mais refletia, meu conflito interno só piorava. Não sabia, de imediato, como reagir. Sou Publicitária de formação e era impossível dizer, radical e impulsivamente: “filha, não é bem assim, a publicidade, por vezes, ... exagera”, porque, de fato, isso é, no mínimo, simplista. Além do que, se dissesse isso, minha fala poderia se enquadrar como um tipo de comunicação violenta, porque, além de manifestar uma visão restrita sobre publicidade, seria total negação dos interesses e sentimentos da criança, podendo fazê-la sentir-se, dentre outras coisas, enganada. Também não podia simplesmente desviar o foco do assunto, estratégia comumente vista no trato com as crianças: “ah, legal, então ... vamos desligar a TV e brincar de outra coisa?” O dilema era: eu não podia subestimar nem desconsiderar sua avaliação, nem confirmar plenamente a mensagem publicitária, tampouco sair furtivamente da situação. Talvez pudesse ter dito que testaríamos o produto para ver se ele realmente funcionava. Mas não me ocorreu naquele momento. Até porque, a bem da verdade, ela não me fez perguntas nem demandas, apenas me contou, eletricamente, sua mais recente descoberta.


Mentalmente retomei o contexto que, segundo minha hipótese, poderia ter originado esse interesse por produtos tira manchas. Acontecera uma situação em nossa vida que demandava muito, mesmo, uma solução definitiva contra as manchas. Minha filha possuía uma saia rodada, cheia de balanço e brilhos, que era sua preferida. De tanto gostar dela, um dia, quis vesti-la para ir à escola. Estando lá, como usualmente acontece em ambiente escolar, caiu tinta na saia. Uma mistura de tintas e colas, para ser mais precisa. E essa poção, ali, naquele tecido leve e esvoaçante, encontrou morada. Vivemos momentos de eternos retornos da saia para o balde, do balde para o tanque, do tanque para as mãos e a mancha simplesmente vencia todas as batalhas. Minha filha não se conformava. Ela acompanhava, a seu modo, todo aquele procedimento e se entristecia a cada derrota. O tempo passou e a saia acabou ficando de lado para se buscar alguma alternativa de customização, se fosse o caso. E era. Mas, naquela manhã, a publicidade se conectou com minha menina através daquela promessa que ela, acredito, tanto queria ouvir. A situação, a meu ver, parecia ser: minha filha tinha um problema, encontrou uma possibilidade de solução e estava compartilhando, contexto no qual prevalece a ideia da criança como sujeito e capaz de participar ativamente na composição de situações que fazem parte de sua vida. A situação não parecia ser: minha filha não tem condições de compreender as situações em função de ser apenas uma criança, foi presa fácil da publicidade e está induzindo o comportamento de consumo da família, na qual se sobressai a ideia da criança tábula rasa que acaba se tornando tirana.


Num estalo, lembrei-me de palavras. Costumo refletir, seja no cotidiano ou em pesquisas sobre comunicação e infâncias, os sentidos das palavras. Elas sempre chamam minha atenção. Busco compreender o imaginário das palavras em diálogos com as infâncias. Talvez por isso elas me custem tanto a sair espontaneamente, porque percebo, nas palavras, uma força. Palavras são tecnologias do imaginário a serviço da comunicação. Naquele momento, naquele brete comunicacional com minha filha, acabei acessando uma expressão que tantas vezes já ouvi: “precisamos ter cuidado, criança não tem malícia”. Essa expressão é comumente citada quando se tenta explicitar que é preciso proteger as crianças de alguma situação, querendo dizer que crianças são ingênuas e, no limite, incapazes de julgamento. Passei a questionar, no fundo, afinal, o que vem a ser essa malícia? Seria uma resultante da maturidade, um estágio evoluído na qual o sujeito adota uma atitude constante e vigilante diante de tudo que vê, ouve, sente? Seria captar, instantaneamente ou mais breve possível, interesses ocultos e maléficos subliminarmente inseridos por todo lado e, sem trégua, precaver-nos? Se malícia pode vir a ser considerada uma vigilância constante, uma incorporação de atitude de suspeita, cansa só em pensar que precisa ser algo almejado. Não parece estranho assumirmos que temos de dizer repetidas vezes às crianças que precisam desconfiar para poder crescer, para serem (como tanto gostam e admiram dizer) grandes? Absolutamente acredito que os adultos precisam proteger, e também cuidar, amar, conviver com as crianças. Confio que temos de, como grandes que somos, identificar riscos, perigos, seja de qual natureza forem, e agir em defesa dos pequenos e pequenas. Mas utilizar a malícia como um critério de diferenciação entre adultos (completos) e crianças (seres em devir), como algo a ser ensinado pelos adultos e incorporado pelas crianças parece mais estimular a consolidação da face sombria de nossa vida em sociedade do que promover entre as pessoas um espírito comunitário e acolhedor. Minha filha, nesse fato partilhado, falando como de diz, não teve malícia. Teve confiança. Minha filha, meu filho e tantas outras crianças, simplesmente, confiam. O que está errado, afinal de contas, confiar ou ter malícia? Para crianças o mundo é bom, belo, verdadeiro e pode ser muito divertido a maior parte das vezes. Que possamos aproveitar esse dia celebrativo para refletir sobre o momento em que deixamos de lado nossa confiança no mundo e nas pessoas, que desviamos das rotas da verdade e que passamos a adultecer sem limites.


Por Juliana Tonin

Texto publicado no Caderno de Sábado - Correio do Povo | 12.10.2019


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