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Cresço, logo serei

Atualizado: 18 de jun. de 2021


Parque Vigeland, Oslo - Foto: Clarissa Menna Barreto



As crianças nascem para crescer. É o que se espera delas. Contamos com avançados instrumentos que nos permitem aferir essa expectativa. A história nos revela que os altos índices de mortalidade de crianças até a modernidade poderiam ser os fundamentos para a centralidade nesse apelo pelo crescer (e dentro de parâmetros do que se convencionou como normal). Manter um calendário regular de consultas pediátricas, alimentar e oferecer estímulos passam a ser as principais ações que norteiam agendas, metas e interesses das famílias.


Consensamos que a forma ideal de conduzir vidas de crianças é fazendo-as crescerem. Porque, afinal, queremos que vinguem, queremos tê-las por muito tempo, queremos que sejam fortes. Com isso, nos mobilizamos para que superem o quanto antes esse período que, receamos, é de imensa fragilidade.


Assim, nossas relações com as crianças passam a ser compostas por todo um vocabulário de palavras de elogios, validações, qualificações, mensurações para que atinjam um estágio mais avançado. Ouvir uma criança de 3-4 anos demonstrar ao seu interlocutor que se sente incomodada por ser chamada de bebê, porque “agora já é grande”, como se sua fase de bebê fosse inferior, revela, desde cedo, as implicações dessa ode pelo devir.


Mas o que acontece é que, acima de tudo, as crianças estão disponíveis. Algumas com mais voracidade que outras, mas todas com grande apetite pela vida. Acordam como primavera e correm, pulam, saltam, gritam, colorem, avançam, querem tocar, se movimentar, explorar, experimentar, conhecer, estar-junto, vibrar, até se gastarem, ofertando a si mesmas seu dispêndio improdutivo.


E nós, os adultos, o que fazemos diante dessa disponibilidade? O que sentimos? Conseguimos olhar para essa vitalidade e dizer, tão somente, sim? Essa força vital, quando nos toca com sua potência viscosa e desordenada, encontra que tipo de tempo e espaço em nossas vidas?


Aprendemos que despender energia de forma produtiva, para atingir uma finalidade, deve ser o horizonte que avistamos, nós, os grandes, a cada amanhecer, tão entranhados estamos na organização coletiva do trabalho. E que nossa escolha socialmente partilhada é a de domesticar as energias da “animalidade” e mostrar, fermentando crianças para crescerem, que nossa presença na vida é, essencialmente, utilidade e função.


Mas, afinal, o que sou enquanto não cresço?, poderia nos perguntar a criança. O que sou no aqui-agora de cada dia? Uma ausência de ser? Uma intenção de existência no momento mais precário da linha de amadurecimento humano, porque (ainda) não encaixada nos planos de vida que estão hegemonicamente compactuados?


Mostramos para as crianças, sol a sol, que ela é uma ilha de disponibilidade num oceano de indisponibilidade. Ensinamos a elas que não basta estarmos vivos, temos de nos tornar maiores, melhores, mais capazes. Discorremos sobre mudar o mundo, sobre como podemos ajudar os outros, ao mesmo tempo que pedimos desculpas quando os nossos filhos e filhas saltam diante de nós e contaminam, com seus ruídos e sua incontrolável vontade de estar junto, o suposto propósito maior de nossas lives. Queremos salvar o grande mundo enquanto, paradoxalmente, não sabemos como lidar com nosso pequeno mundo, com a intensidade da vida comunitária que acontece dentro de casa, no encontro com aquele Outro que nos interpela a cada instante, que faz parte e que espera por nós.


Estar com a criança que temos evoca, inevitavelmente, os registros da criança que fomos. Que neste dia das crianças de 2020 possamos revisitar nossa criança e nos (re) conectarmos com a disponibilidade, o vigor, a força, o poder e a potência de ser, tão-encantadoramente, um Eu, inteiro, no presente.


Por Juliana Tonin


Mãe do Gabriel e da Catarina. Comunicóloga, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da FAMECOS/PUCRS. Pós-doutora em Sociologia da Infância (Paris V - Sorbonne), Coordenadora do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias.



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