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Cheiro de assobio de passarinho


Fonte: Desenho de uma das crianças, Daltro, 2021

Definir comunicação é tarefa complexa. Desde sua constituição como campo específico do saber, o que poderia favorecer maior precisão, muito se debate sobre seus sentidos e contornos. A comunicação, muitas vezes, é entendida e empregada como sinônimo de tecnologia, de mídia, de informação, de expressão, facetas que podem estar contidas em seu entendimento, mas que não a resumem. Na Dissertação de Mestrado intitulada A comunicação do sensível na Perspectiva das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) com crianças, finalizada em 30 de março de 2021, buscamos compreender uma das possibilidades de se pensar a comunicação, a partir da noção de comunicação do sensível. Neste sentido, a comunicação seria uma espécie de espaço comunicante no qual participam falas, ambientes, gestos, diferentes mediações simbólicas, o que Sodré (2014) chamou de transverbal (englobando palavras, imagens e as afecções corporais). Para Marcondes Filho (2019, p. 15), a comunicação do sensível partiria do caráter relacional para ensejar o sujeito a um determinado tipo de transformação. Destaca que ela tem potencial de vida, pois, partindo do relacional, incide sobre as sutilezas que estão no interior da alma: “a comunicação, portanto, jamais pode ser vista como transmissão, deslocamento, transferência, como se fosse um objeto que eu pegasse de um lado e pusesse em outro, (...); como se fosse possível retirar uma ideia, uma sensação, uma impressão, um sentimento de dentro de mim e abrir a cabeça de outra pessoa para colocá-lo lá dentro. Não dá”.


O objetivo da dissertação foi aproximar a perspectiva da comunicação do sensível com o campo da saúde e de procurar identificar os elementos e as dinâmicas dessa comunicação no cenário das Práticas Integrativas e Complementares (PICS/SUS), especificamente no acompanhamento da prática terapêutica Reiki. Salientamos que o objetivo não foi o de avaliar ou validar (ou não) as práticas do Reiki em si, mas de compreender suas dinâmicas de trocas para identificar possíveis elementos que constituiriam uma comunicação do sensível neste cenário. Tomamos como referência a premissa de que sua prática propõe-se a favorecer uma transformação na trajetória de cuidado, promovendo sua saúde.


Um atendimento de Reiki, via de regra, opera-se através de sessão individual, com mediação de um terapeuta, no qual, durante em torno de uma hora, há um procedimento de imposição de mãos sobre o corpo da pessoa. Observamos sessões oferecidas para cinco crianças em um ambulatório situado na região metropolitana de Porto Alegre e compartilhamos aqui alguns elementos gerais e reflexões sobre o tema.


Basicamente, nos prontuários de cada criança constavam diversas indicações de sintomas: ansiedade, agitação, compulsão alimentar, hiperatividade, nervosismo, falta de confiança, insegurança, déficit de atenção, bipolaridade, rinite, sinusite. Com observação pontual, grupo focal e técnica projetiva (desenho), não foi possível analisar a trajetória de médio e longo prazos de cada uma delas, mas conseguimos perceber elementos que permitem identificar a comunicação do sensível naquele momento, e de que formas os relatos das crianças indicam pistas de transformação em seus estados iniciais. A comunicação do sensível se configurou ritualizada na própria forma como as sessões eram conduzidas, sequencialmente divididas em adentramento no espaço (consultório), conversa inicial, aroma, música, imposição de mãos.


Nesse ritual, a terapeuta conduz a criança ao consultório, dialoga numa conversa que mescla perguntas sobre o estado de saúde e sobre suas experiências e preferências, estabelecendo contato que faz emergir informações necessárias aos registros, mas também confiança e vínculo. Em seguida, as crianças deitam na maca e é oferecido a elas a opção de experimentarem um óleo essencial (laranja, eucalipto, lavanda), elemento do qual elas fizeram referências do tipo em seus relatos: “eu me sinto como se tivesse em um jardim cheio de flores cheirosas” (C1); “Um cheiro, hum, um cheiro tipo de chá, tipo de chá, me acalmo” (C2); “Anh, pra mim representa aquele cheirinho, anh, que tipo é sem poluição, anh, é um monte de árvore sem carro, sem nada, sem prédio… É uma coisa boa que eu sinto lá, tipo assobio de passáro”(C3). Após o aroma, é oferecida a opção de ouvirem música durante o procedimento, “[...] e a musiquinha, eu me sinto... porque ela bota uma musiquinha ... aí eu me sinto como si tivesse numa chuva ao redor de um monte de flor (C1)”. Posteriormente as crianças fecham os olhos e a terapeuta começa sua prática de imposição de mãos que percorre lentamente o corpo da criança, da cabeça aos pés.


Na observação, foi possível identificar que, mesmo sem o contato, em alguns momentos houve um tipo de relação entre a manifestação de movimentos do corpo da criança, que surgiam espontaneamente e a retiravam de um estado inicial de relaxamento, e as escolhas da terapeuta por parar o deslocamento de suas mãos, mantendo-as estacionadas, e novamente acionando-as quando o relaxamento do corpo da criança estava restabelecido. Após finalizar o tempo previsto, a terapeuta conduzia com palavras as indicações para que a criança voltasse a abrir os olhos, mexer o corpo e, assim, pudesse levantar da maca, encerrando a sessão.


Quando as crianças relatam o sentido do Reiki para elas, sinalizam “uma energia boa… conforto… anh… parece que tu nem tá ali, parece que tu tá… dormindo, só que não tá ali” (C3); “A gente entra numa sala especial, que não existe problema, só existe tranquilidade” (C1); “eu me sentia mais leve… como se… eu tava calmo, como se… anh... não tivesse… nada pra me preocupar” (C2).


Esses elementos gerais que fluem na comunicação do sensível demonstram que há uma intenção comum, partilhada nesse espaço comunicante do transverbal, que alia diálogo com demais mediações simbólicas intangíveis acionadas por aroma, música e imposição de mãos. Para Marcondes Filho (2019), a comunicação do sensível parte do caráter relacional e enseja o sujeito à transformação, para uma mudança não decorrente da simples transmissão ou do contato, mas da intensidade de compreensão e aceitação, ou negação, de determinados atos comunicacionais. Isto porque, segundo ele: “a comunicação, não existe em si e por si mesma, não é ‘uma coisa’, mas algo relacional: ela está diretamente relacionada à minha necessidade. O que é para mim, pode não ser para qualquer outra pessoa” (p. 13). Para as crianças observadas, percebeu-se que houve manifestações de impressões e sentimentos que sugerem diferença, por contraste, daqueles sintomas elencados em seus diagnósticos. Sentir calma, leveza, conforto, ser transportado para lugares de flores, sentir cheiro de assobio de passarinho e, principalmente, ter confiança de que se está num espaço seguro no qual não há conflito, atravessaram os relatos de forma geral e atestam toda a potência da mudança que há em cada ato comunicativo, a cada momento.


Jeronima Daltro Milton

Mestre em Comunicação Social (PUCRS), Especialista em Gestão de Negócios Internacionais (FAPA), Bacharel em Comunicação Social – Relações Públicas. Bacharel em Administração de Empresas (FAPA). Especialista em Saúde (Relações Públicas) da Secretaria de Estado da Saúde do Rio Grande do Sul. Integrante do Grupo de Estudos em Promoção da Saúde (GEPS) e egressa do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias.

Juliana Tonin

Mãe do Gabriel e da Catarina. Comunicóloga, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da FAMECOS/PUCRS. Pós-doutora em Sociologia da Infância (Paris V - Sorbonne), Coordenadora do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias. Orientadora da Pesquisa.


Referências


MARCONDES FILHO, Ciro. A comunicação do sensível: acolher, vivenciar, fazer sentir. São Paulo: ECA-USP, 2019. Disponível em: http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/368/324/1332-1 . Acesso em: 1 set. 2019.


SODRÉ, Muniz. A ciência do comum: notas para o método comunicacional. Petrópolis: Vozes, 2014.


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