Favicon Corugim.png
Fala CoruGim logo.png

Atualizado: 25 de nov. de 2021


Crédito da foto: composição de imagens Plataforma Zoom.

O webinar "Infâncias em Diálogo: A escuta da criança e do adolescente nos espaços educativos", realizado no dia 19 de outubro em parceria entre o Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente e o Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias (LabGim), propiciou trocas relevantes sobre a comunicação com crianças e adolescentes, nos mais diferentes contextos.


A gravação do encontro já está disponibilizada: assista aqui.


O evento foi aberto pelo Irmão Sandro Bobrzyk, coordenador do Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, que deu as boas vindas e falou da importância de olhar para as diferentes dimensões na relação com esse público. O evento marcou ainda o lançamento do site do Centro, que terá espaço para depoimentos, denúncias e pesquisas relacionadas à temática da promoção dos direitos da criança e do adolescente.


Antes do debate, mediado pela professora Patrícia Teixeira, coordenadora do Observatório Juventudes, foi apresentada uma versão pocket do documentário “Infância Falada”, produzido e dirigido por Hermílio Santos e Kamila Almeida. A produção é um desdobramento dos resultados de uma pesquisa coordenada pelo professor Hermilio Santos (PPG Sociologia PUCRS), sobre a violência contra a criança em diferentes regiões do Brasil. No documentário, jovens e crianças falam sobre o tema, mas principalmente a respeito dos projetos que participam que fazem da cultura, da arte e da comunicação, meios para restabelecer a cidadania e estimular ambientes de interação entre eles, como o caso da Fundação Casa Grande, em Nova Olinda, Ceará, em que as crianças gerem a organização do espaço, comandam atividades culturais e recebem os visitantes, sem a mediação de adultos.


O professor Hermilio Santos, que participou do encontro, destacou o que essas iniciativas possibilitam a autonomia da criança mas não visam a uma adultização, tendo em vista que elas ganham eloquência ao pensar e falar a partir de suas experiências, se tornando em experts de suas próprias realidades, sugerindo e conduzindo projetos pelas próprias crianças.


Na mesma linha, a professora Juliana Tonin, coordenadora do LabGim, destacou experiências de pesquisa realizadas no laboratório que permitiram, a partir da díade dar voz/escutar a criança, pensar o que é a escuta e os diferentes tipos de escuta. Ela identifica que as relações precisam ser ressignificadas por, frequentemente, estarem centradas ou no adulto ou na criança, perpetuando, assim, relações verticalizadas. Ao possibilitarmos condições para encontros mais horizontalizados entre crianças, adolescentes e adultos, permite-se que todos possam ser acolhidos nas interações, já que “todos somos seres humanos e podemos cuidar da vida juntos”, ressaltou Juliana.


A estudante de Ensino Médio Natalia Pozza Homem, bolsista de iniciação científica do LabGim contribuiu com uma visão de como experienciou a relação com os colegas ao longo da vida escolar. E lembrou a possibilidade de conviver com crianças de outras realidades em projetos que participou, como uma oportunidade rica de trocas. Lamentou que esses espaços não sejam proporcionados a todas crianças, como também mostrado no documentário e destacou o quanto hoje elas acontecem nas redes sociais, mas também carecem do contato mais próximo fora das telas.


Naiana da Silveira Sampaio, professora do Colégio Marista Ipanema, da zona sul de Porto Alegre, trouxe uma visão sobre a importância de valorizar os espaços de troca na escola e o estímulo a propostas pedagógicas que permitam valorizar o diálogo com as crianças e adolescentes. Ela destacou o quanto é preciso estimular a empatia no exercício de estar junto, propiciando espaços para a criança explorar os afetos em suas relações.


Já o educador social William Rios Bramchartt, do Centro Marista Aparecida das Águas, da região das Ilhas, também em Porto Alegre, falou sobre a importância de criar espaços de reciprocidade com as crianças no ambiente escolar e não perpetuar as violências nas quais as crianças já convivem. Ao finalizar, contou o episódio em que pediu aos alunos que produzissem desenhos sobre um dia feliz e outro sobre um dia triste. Quando se deparar com a figura de um caixão, William perguntou ao menino autor do desenho, que respondeu que a imagem representava o medo de sua própria morte, tal como ocorreu com o pai e o irmão, mortos em situação de criminalidade. O educador encerrou sua fala refletindo sobre essa cena: “Se não houvesse um olhar humano para aquele menino, estaríamos, como sociedade, dizendo sim à essa criança, no que ela representou em seu desenho. É preciso estar junto aos alunos de forma humanizada”.

O encontro foi finalizado destacando as diferentes possibilidades de pensar as infâncias e as juventudes a partir do diálogo, integrando também os adultos nessa conversa, para juntos, como seres humanos, conviver e a fortalecer a cidadania na interação.


Este é o segundo evento realizado em 2021 na parceria entre o LabGim e o Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente. Em agosto, foi realizado o encontro "Paternidades em Diálogo", em que foram apresentadas diferentes experiências das paternidades, a partir das trajetórias pessoais e profissionais dos convidados.




Texto: Anderson dos Santos Machado.


  • LabGim

Crédito da imagem: Divulgação (Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente).

Estão abertas as inscrições, até 18 de outubro, para o webinar "Infâncias em Diálogo: A escuta da criança e do adolescente nos espaços educativos", que será realizado no dia 19 de outubro de 2021, das 19h às 20h30min, pela plataforma Zoom.


Durante o webinar, além da conversa com convidados sobre a escuta de crianças e adolescentes, haverá exibição especial com trechos do documentário “Infância Falada”.

O encontro é promovido pelo Centro Marista de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente e pelo Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias (LabGim).


Confira outros detalhes sobre o evento e como fazer sua inscrição aqui.


  • LabGim

Atualizado: 13 de out. de 2021


Crédito da foto: PUCNIC, Clarissa Menna Barreto, 2019.

Perguntou-me o que aconteceria se o presidente, por algum acaso, não pudesse mais ser o presidente. Haveria um substituto, respondi.

Seu semblante de dúvida fazia-me interpretar que, para ela, parecia improvável que um presidente pudesse ser substituído.


- Me conta, então, o que acontece quando uma professora não pode ir à aula num dia, por exemplo?, perguntei.

- Tem uma substituta, disse-me, visivelmente inundada pela epifania da compreensão, por comparação, afinal professores figuram em nossas vidas como autoridades.

- E se a substituta da substituta não puder ir?, prossegui.

- Tem outra substituta, constatou.


E seguimos escalando as possibilidades de substituição, até que chegamos a um limite com sua pergunta:


- E se não houver mais substituta?


Fervilhavam intenções em minha mente. Não importava, para mim, naquele momento, o nível de necessidade de substituição a que fôssemos submetidas. Havia um motor interno, ativo e atento, que tentava atropelar minhas palavras, buscando avidamente desenhar um retrato de um mundo muito mais coerente e organizado do que, de fato, o é. E eu queria evitar falas que levassem a encruzilhadas nas quais houvesse possibilidade de visualizar crianças sem as referências dos adultos.


- Bom, daí a escola poderia suspender a aula, ocorreu-me dizer.

- Ou poderia deixar as crianças serem as professoras naquele dia, rapidamente ela sugeriu.


Curioso.


Em momento algum tinha aventado essa possibilidade. Certamente em algum cantinho escuro e obscuro do meu ser, o saber dos meus estudos ainda não tinha feito a lavoura, sequer pela imaginação. Escola conduzida pelas crianças, sendo elas as professoras, talvez estivesse guardado no departamento interno de cenários potencialmente perigosos. De pronto, optei por ressignificar esse resquício de paradigma da criança selvagem adormecido e lancei, em meio aos nossos risos, com entusiasmo:


- Poderia ser! Então, me conta, o que tu proporias se fosse a professora por um dia?

- Ah, eu faria: Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio. Lanche. Pátio.


Caos?!


Parte de mim, aquela das estruturas empedernidas, das regras rígidas, do controle, da disciplina, da ooooordeeeeem (!), estava de cabelos em pé, andando de um lado para o outro, e com muitas e muitas e muitas vozes soprando em seu entorno: - olha aí, tá vendo?, deixem soltas e vira baderna! - Não querem nada com nada! - São preguiçosas, não querem estudar! - Primeiro as obrigações, depois a brincadeira! Certamente há muito mais experiências pessoais e coletivas com estruturas rígidas, dominadoras e opressivas do que com aquelas flexíveis, parceiras e condutoras da autonomia nesse verbo todo.


Mas outra parte de mim, aquela do sim (!), do novo, do experimento, aquela que apenas confia, aquela da valorização do essencial ficava se perguntando: seria muito legal se as crianças pudessem viver isso por, ao menos um dia, não achas? E autoeducava-se: e se as crianças fossem convidadas a pensar acerca dos processos pedagógicos nos quais estão inseridas e que definem, todo o santo dia, o dia a dia de suas vidas escolares, que tal? Na programação pátio - lanche, algo ficava evidente: um professor, em sua função, deve estabelecer uma rotina dividida por tempos e atividades alternadas, e tudo pareceu bem até ali. O único senão surgiu nas escolhas dessas atividades.


Já faz algum tempo, meu filho, enquanto conversávamos sobre profissões e formas como deveríamos encarar o serviço que prestamos à vida, sinalizou algo que retornou a mim naquele instante. Ele revelou que tinha interesse em utilizar recursos, e muito possivelmente da informática, para fazer com que crianças gostassem da escola. Lembro de ter ficado surpresa e de ter solicitado que me explicasse suas ideias. Ele me disse que normalmente as crianças gostam da escola por muitas coisas, mas não pelas aulas em si. E ele acha que deveriam gostar, pois passam a maior parte de suas vidas - toda a infância e adolescência - entre aulas e aulas. Segundo ele, ainda não existe uma forma para que esse gostar aconteça, pois elas normalmente são muito chatas, declarou. E ele gostaria de mudar isso.


São duas crianças com idades e trajetórias escolares distintas. Não se pode dizer que o sentimento de uma seja igual ao da outra em relação às aulas, pois essa comparação não estava na conversa e não é foco nessa partilha. O que essa cena faz ver é que escola é um espaço significativo na vida das crianças, composto de nutrição física, intelectual e afetiva, e que um dos melhores conteúdos ainda figura ser o de estar com o outro. Nessas vozes parece haver uma consciência de que são suficientemente capazes para participarem do planejamento do que vivem naquele espaço. E isso tudo pode querer nos sinalizar que talvez não queiram viver no velho mundo em que estudo e trabalho é sinônimo de sacrifício.


Tudo em não mais de dez minutos de um dia qualquer, entre uma garfada e outra. Para ouvir a criança não precisa de muito. Basta um tantinho de coragem para ampliar o horizonte de visão e deixar velhas certezas para trás. Feliz Dia das Crianças, com gratidão por tudo o que são e nos fazem (re) pensar.


12 de outubro de 2021



Por Juliana Tonin

Mãe do Gabriel e da Catarina. Comunicóloga, Pesquisadora e Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da FAMECOS/PUCRS. Pós-doutora em Sociologia da Infância (Paris V - Sorbonne), Coordenadora do LabGim, Laboratório de Pesquisas da Comunicação nas Infâncias.